ENTREVISTA a Márcio Holanda, Arquitecto*

O arquiteto Márcio Holanda e Bastien Loloum coordenador do projecto

O arquiteto Márcio Holanda e Bastien Loloum coordenador do projecto

O que é a Bioconstrução? Sinónimo de arquitectura ecológica, arquitectura sustentável, arquitectura verde e green building. “Bio” significa que é uma construção viva, onde a edificação interage com o meio natural, em equilíbrio, e de acordo com os ciclos naturais, ou seja, não olha apenas os materiais e equipamentos que a compõe, mas a funcionalidade desses ao longo da sua vida útil. O princípio da bioconstrução é a maneira de organizar a edificação, o modo como vai estar integrada ao clima. É determinante saber qual é a orientação solar, qual o ritmo dos ventos, da chuva … A edificação tem de ser preparada para dar conforto natural, aproveitando as energias do local . As necessidades funcionais da edificação têm de ser cruzadas com as condicionantes climáticas – como vento e sol – que vão dar o resultado da construção. O resultado não pode ser a forma pela forma em si. A forma é gerada no processo de solucionar o problema.

Como foi feita esta adaptação ao Ecolodge da Jalé? A edificação da Jalé foi pensada em etapas, que simbolizam 5 elementos mais marcantes: Fundação; Piso; Paredes; Aberturas e Cobertura. Em cada elemento procurou-se o uso nobre dos materiais, que existem na área envolvente à edificação, e que tem características que favorecem um determinado uso nesta.

  • Na fundação: Destaque para a pedra, pela sua solidez, na base da edificação. A opção de usar pedra e não betão, pretendeu valorizar um material local e reduzir o uso de cimento – material importado – evitando que o dinheiro da compra de materiais vá todo para fora da região onde é implementada a obra. Na edificação da Jalé, a pedra foi adquirida a 2 km de distância. O uso de cimento foi reduzido ao mínimo indispensável para permitir a eficiência da construção, tendo, na fundação, sido utilizado apenas argamassa de cimento para unir a pedra. O uso de elementos importados (como o cimento), acontece apenas quando esse traga um benefício o mais permanente e duradouro possível, proporcionando mais autonomia ao sistema. Na obra da Jalé o uso do cimento foi feito apenas onde ele era nobre, ou seja, onde só ele cumpre certo papel com mais eficiência.
  • No piso: Foi também reduzida a utilização do ferro, tendo sido utilizado o ferro mais fino, apenas para fazer a cascaje ( lajes pré-fabricadas de argamassa armada, em formato de abóbada e com espessura fina tipo casca. Esta é outra nova técnica utilizada na construção desta obra, desenvolvida por Instituto Tibá (http://www.tibarose.com), no Brasil, por um mestre em bioconstrução, Johan Van Lengen. Para poder aplicar esta tecnologia em São Tomé foram capacitados técnicos locais, por representante deste Instituto.
  • Nas paredes: Feitas de adobe, uma técnica milenar ainda não utilizada em São Tomé. Foi utilizada a tecnologia de blocos de adobes grossos – que dispensa betão armado como estrutura – que garantem a estabilidade da edificação. Permitiu a redução drástica de cimento, também na união dos blocos, feita com massa de terra (usada apenas no adobe) e serradura – resíduo abundante no país – e areia local, das estradas. Os blocos foram feitos e secos localmente em estufas. A terra utilizada nos adobes foi extraída a 4 km de distância.
  • Na cobertura: Utilizou-se a técnica de “Telhado Verde”, como solução duradoura. Está técnica introduziu o uso de bambu como estrutura para a cobertura interior, e a esteira de banza (fibra local proveniente da palmeira) como forro. Por cima foi também colocado um material de impermeabilização (que teve de ser importado) de grande durabilidade, protegido com revestimento de solo (terra mais arenosa), na parte superior, onde foi plantada vegetação natural – abundante no local – para que as raízes segurem a terra. Essa terra tem dupla função de isolamento térmico- acústico do telhado -e ao mesmo tempo proteger a impermeabilização.
  • Nas aberturas: Nas aberturas foram utilizadas garrafas de vidro reutilizadas ( grande resíduo local), para iluminação e ventilação natural, tendo sido colocadas como vitrais, conferindo um pouco de arte na utilização do vidro. O uso da madeira foi reduzido, aplicado apenas onde seria essencial e sem material substituto.

Como será o paisagismo enquadrado no local? Uma inovação neste projecto foi a integração de resíduos no paisagismo. Utilizaram-se resíduos naturais existentes no local (troncos de coqueiros caídos, casca de coco) para estruturação das diferentes áreas públicas, que foram inicialmente cheias com pedras e lixo existente na área envolvente – para nivelar o piso – depois revestido com casca de coco e terra e também com garrafas de vidro recicladas. Deste modo reduziu-se o habitual uso intenso de betão armado para construção destas áreas. Uma outra inovação consistiu na associação do paisagismo ao saneamento, sendo todo o esgoto tratado no próprio local, através de um mecanismo que filtra as águas residuais, depois canalizadas para uma área de vegetação natural de crescimento rápido (nas cercas vivas de protecção aos Bungalow). É um Paisagismo produtivo, que além de estético tem também uma função produtiva.

Ligação bioconstrução e desenvolvimento local na área do Ecolodge? No caso concreto da construção do Ecolodge da Jalé, a comunidade prestou serviços na aquisição e transporte de materiais, na construção de adobes para a obra, entre outros. Este envolvimento permite também mostrar à comunidade como utilizar os materiais locais (como bambu, casca coco, garrafas), aprendendo e assimilando estas novas tecnologias. Assim a comunidade adquire mais autonomia em transformar seu próprio espaço, e criar sua casa de forma mais confortável.

Esta é uma obra de extrema visibilidade, não só para a população nacional, mas também para todos os turistas e visitantes da Ilha, sejam nacionais ou estrangeiros, que vão estar levando para o exterior esta iniciativa como referência sustentável de São Tomé e Príncipe.

* A Baixo Impacto Arquitectura ( http://www.arqbaixoimpacto.com.br ) é um escritório dos sócios arquitetos Márcio Holanda e Paulo Rodriguez, sediado em Florianópolis, Brasil, especializado em arquitectura de baixo impacto ambiental ou bioconstruções.

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